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14 agosto 2013

Olhares Perdidos

Guess where i am and i will follow back every single one of u guys!!!

Já se tornara maçante. Teimava em não querer saber o que viria depois, pois nada mudaria aquela rotina. Todos os dias eram iguais e já havia perdido a conta de quanto tempo se passara, já que morava naquela pacata cidade a muito tempo.
Era mais um dia normal quando tomou seu ônibus em direção à região leste, com seus fones de ouvido, sentou em qualquer lugar que estivesse vazio e seguiu viagem até a escola. Deitou sua cabeça na janela e enquanto sua música preferida tocava, seus olhos se mantinham fixos na janela. A mesma paisagem, os mesmos prédios, as mesmas ruas.
Foi quando percebeu uma agitação diferente: uma mulher desajeitada, entrava no ônibus com uma criança. A menina devia ter uns 7 anos, pensou. A tal senhora que a acompanhava, estava com dificuldades para conciliar as mãos da garota com suas inúmeras sacolas de compras. Cansada da monotonia de todo dia, resolveu levar pequena garota no colo.
- Obrigada - disse a mulher com um sorriso de lado.
Permaneceu calada, apenas sorriu em resposta.
- É uma cidade muito linda - a menina sorriu.
- Desculpe, o que disse? - tirou os fones.
- Eu disse, moça, que sua cidade é muito bonita - respondeu a menina, já um pouco impaciente.
- Ah, sim - respondeu sem entender muito bem.
A cidade não era bonita.
- Falo sério moça. Vim de uma cidade do interior, não temos prédios grandes como esse.
- Sorte a sua.
- Não diga isso - a criança se inclinou para a janela - Acho que já perdi as contas de quantas vezes passei pelo mesmo lugar onde moro. Já contei quantos ramos de flor tem em cada esquina. Sei te dizer onde fica todos os pontos turísticos e até a cor de cada muro...
- Sua cidade deve ser muito pequena - retrucou.
- Não, senhora - ela sorriu - É uma cidade bela por isso fiz questão de observar cada detalhe.
- Por que?
- Todos os dias, papai chega cansado do trabalho. Sempre diz que é difícil a vida que temos e nunca o vi agradecer por nada. Mas mamãe não, ela é diferente, ela me diz que é importante observarmos os detalhes para a vida não ser tão chata - a menina se vira - E bom, se não vermos a beleza em um lugar que somos obrigados a viver todos os dias, o que fará nossa vida bonita? - Ficou sem palavras, acariciou o cabelo da menina e mordeu os lábios - E sabe, moça? O que você tem aqui é ótimo! É uma cidade grande e cheia de detalhes para observar. Eu nunca me cansaria... Como por exemplo, o que escreveram naquele muro, olhe! - a garota aponta o dedo para um grafite - Você já parou para observar aquilo? Onde eu moro seria uma obra de arte!
Olhou. Olhou. Olhou mais uma vez. Quando foi que aquele grafite apareceu ali? Havia três anos que fazia o mesmo caminho e nem se quer notou as cores que ali haviam. Coçou a cabeça e olhou o ponto fixo enquanto o ônibus se afastava de lá. A pintura já estava suja e com algumas falhas, o que provara que não era nova. Ficou perplexa.
- Nunca tinha visto, não - finalmente responde.
- Tudo bem - a garota ri - Deve ser a primeira vez que a moça passa por aqui, não é? - não respondeu - Ei moça, minha mãe já está me chamando! Muito obrigada - a garota beijou seu rosto e desceu do ônibus.
A partir daquele dia, perguntou-se onde estava o colorido que seus olhos de criança um dia viram. Aprendeu a valorizar detalhes, a observar e não apenas olhar, mas também ver. Como uma criança pudera lhe ensinar tanto? Como a vida lhe roubara tantos olhares?